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E foi – Parte 2

Aí embarcamos. O mis-en-scene continuou bem apropriado. Barco sujo e um aparente overbooking de pessoas ajudava a dar o clima da prova. Quando o barco foi se aproximando da ilha, a soma da visão de Alcatraz mais o ronco do motor diminuindo fez a adrenalina disparar. O alto-falante anunciava em tom fúnebre; de três em três passando pela porta pra cair na água e o chip começando a marcar o tempo da prova.

A sensação da queda na água, depois de todo esse tempo que passou, está um pouco difusa. O tal frio, tão propagado e, para muitos, exagerado estava todo lá. Meu único pensamento era de que a roupa realmente era meu salva-vidas. Tentei sair nadando em direção ao prédio que nos foi dado como referência em terra, mas a essa altura a borracha do meu óculos já tinha sucumbido a baixa temperatura e se mostrado pouco aderente ao meu rosto. A cada par de braçadas hesitantes lá estava eu a tirar o óculos cheio d’água e ver o quanto estava fora de rota.

Alguns minutos depois, hordas de nadadores me passando – inclusive meu irmão – decidi que era hora de adaptar a visão embaçada e sair nadando pra fazer jus ao tempo que treinei. Dei a última olhada pra Golden Gate a minha direita e acelerei a braçada. Quando entrei na Baia, há 400 metros da praia, aí realmente puxei o ritmo.

Ao levantar e sair da água pra receber a medalha, tirei a tampa de silicone que coloquei no ouvido e saí correndo pro banho. Nesse momento, a adrenalina bloqueava meu cérebro na vã tentativa de enviar mensagens pra abraçar um pedaço de carvão em brasa e me esquentar.

Quando coloquei o café na xícara e percebi que meu braço parecia um sismógrafo registrando 10 graus na escala Richter, vi que a coisa era feia mesmo. Aí também caiu a ficha que minha querida esposa, depois de ter feito um fantástico trabalho de cobertura da largada, calculou mal o tempo pra voltar e registrar a chegada e a única foto que comprova que eu cheguei mesmo foi a do fotógrafo oficial.

Resumo: Foi do cacete, cheguei bem (terceiro na categoria e trinta e poucos no geral) e agora já estamos pensando na próxima prova internacional. Dicas?

E foi – Parte 1

Aconteceu há menos de 20 dias, mas parece a coisa mais distante do mundo. Depois de 3 dias de tempo bom – apesar das clássicas ventanias –, San Francisco acordou mais nublada do que nunca e com uma garoa irritante naquele sábado do dia 12. Meu amigo aventou até a possibilidade de cancelamento, totalmente em linha com o estilo extra-precavido do americano.

O check-in foi bem tranqüilo, apesar dos gritos incessantes de “Pen-marking” de uma gralha americana. Nesse momento, eu posso dizer que estava bem tranqüilo, mas aí foi que meu estômago revelou a trapaça do meu cérebo. Azia dos infernos e uma providencial magnésia bisurada pra aplacá-la.

Pra que a coisa toda assumisse uns ares de provas comuns, comecei a circular pela galera como normalmente faço. Só que ao invés da tradicional busca dos meus oponentes, queria apenas olhar pras pessoas e ficar imaginando as motivações de cada uma delas pra prova. Há! E também procurar o famoso cachorro que costuma dar o ar da graça em edições anteriores (achei um labrador magrinho com uma mulher, quando perguntei se ele era o famoso, tive que contar a história toda pra mulher. Ela achou graça).

Um pouco antes do horário em que todos deveriam andar pela Fishermann pra chegar no local de embarque, mais um clássico: o descarrego (incrível até como banheiro químico americano é cheiroso). Aí só nos restava vestir a roupa e começar o périplo. Tais como os astronautas dos Eleitos, eu, meu irmão e meu amigo começamos a caminhada, um do lado do outro, meio que orgulhosos daquela coisa toda…

Continua no próximo post…

Email e o mar

Recebi um email do pessoal da organização. Por ser provavelmente o último antes da prova, achei interessante compartilhar e comentar alguns trechos com vocês:

Check-in begins at 5:30 a.m. in front of the South End club house, 500 Jefferson Street

Boa notícia. 5:30 seu cérebro ainda não despertou, sua capacidade de julgamento está muito prejudicada. É seu ID no comando.

Once the ferry is in position, 600 swimmers must enter the water in the space of 5-7 short minutes via two doors on either side of the Blue & Gold Ferry.  This requires that you jump 3 at a time from each door.

Eu já vi aqueles documentários sinistros de pintinhos machos que, descartados numa esteira, são levados direto para um triturador. Esse dia vou me sentir como um deles.

Once you reach the exit door, jump quickly (with your 2 other fellow swimmers) and swim immediately away from the ferry so the next swimmers may jump. (Please make sure you have a safe place to jump without hitting another swimmer, then GO!)

Quantos % cento da população americana é obesa mesmo?

If you are highly competitive then you need to be among the first off the boat, if you are less competitive and are more interested in simply completing the swim then you can be among the last off.

Alguma dúvida do pelotão que vou me posicionar?

The current will first push you slightly east (towards Oakland), this is what is supposed to happen do

NOT compensate by swimming west. Somewhere between half way and two thirds of the way across, the current gradually shifts, carrying you west so you want to make sure that you are east of the opening to Aquatic Park at all times (we don’t want you to miss the opening and float out the Golden Gate Bridge on your way to Hawaii).

MEDO

Water temperature will be approximately 62 degrees.

Convertendo aqui, dá uns 16 graus. Ok, mas nunca nadei com essa temperatura.

Based on our experience over the years, the single most difficult part of the Alcatraz swim is all the negative worrying that you are doing right now.  Once you jump in the water, you are going to have the time of your life.  

Os americanos realmente são os mestres da auto-ajuda

We encourage all swimmers to stop for 10 seconds half way across and really take in where you are. Look to your left where you will see the Oakland hills.  Look to your right at the beautiful Golden Gate Bridge gleaming in the sunlight. Look behind you at Alcatraz and know that you are doing what many once considered impossible. Then look at the unique San Francisco skyline, put you head down and swim for home.  It’s a mental video you will keep for the rest of your life!

Essa hora vou me sentir o Tenente Dan, saindo do barco pesqueiro de camarão do Forest, dando aquelas braçadas e contemplando o infinito

E aí, se empolgaram?

Faltam 8 dias

Hora de tomar algumas precauções pra garantir a proteção contra vírus mutantes e avaliar alguns pequenos atos que podem fazer toda a diferença na reta final. Só que alguns desses atos, podem ter conseqüências:

- Encomendar na farmácia o elixir de lanolina + vaselina e correr o risco de cair no mailing GLS;

- Comprar o protetor de orelhas pra proteger do frio e emular o espírito Rocky Balboa;

- Estender o test-drive da roupa, nadando na piscina da academia pagando um mico generalizado

Os dois primeiros já aconteceram, o terceiro está em avaliação. Provavelmente vai rolar no dia 7 de setembro, já que no dia 8 embarco e aí dificilmente vai ter outra chance.  Até lá, continuamos postando.

4-4-3

A gente sempre ouve aquelas máximas de que é nas adversidades que o ser humano mostra quem ele realmente é, mas como muitos chavões que flutuam pela atmosfera, a gente acaba não trazendo pras nossas vidas. Mais eis que o tempo frio, a água poluída, a curta distância pra SP – o que normalmente aumento o número de participantes – e a minha quase não inscrição trouxeram o inédito terceiro lugar e a subida no pódio.

Pelo ineditismo do resultado, vou ser chato e detalhar a prova: dois quilômetros declarados, mas com a ilusão de que parecia mais, uma vez que mal se avistava a bóia mais distante.

Ao som da fatídica buzina, os quase 100 destemidos nadadores saíram em disparada. Na segunda bóia, contornei junto com um velho oponente meu – de outra categoria -, pra entre essa segunda e a terceira bóia eu seguir no seu rastro. Quando contornamos a terceira bóia pra apontar na reta final, eu o ultrapassei e, já que ainda tinha fôlego, dei uma forçada.

Graças ao meu DDA, acabei comendo bola na última bóia. Ao invés de passar no meio das bóias – conforme detalhado no congresso técnico – contornei a bóia mais afastada por fora, o que me custou 2 posições no geral.

Se isso tivesse me custado o suado terceiro lugar, esse post teria um tom totalmente raivoso. Três quartos lugar na seqüência seria demais pra mim. O importante agora é embarcar na semana que vem com a imagem do pódio na cabeça. Isso pode acalentar a alma, já que o corpo…

Domingo é dia de travessia, onde alguns dos piores fatores estarão reunidos para formar um amálgama do mal. Tempo frio, água suja e um fim de semana cheio de atividades intercaladas pra atrapalhar. Somado a isso tem a comédia de erros da inscrição antecipada que vai fazer com que tenha que chegar uma hora antes no aprazível Parque Estoril em SBC pra garantir a minha.

Mas não tem como desistir. É a última prova antes de Alcatraz e o teste derradeiro de sensibilidade ao frio. A Billings sempre surpreende no quesito temperatura e como a distância da prova é quase a mesma, funciona como um excelente teste. Só fica faltando o fator correnteza, mas acho que de algum jeito o fato de eu enfrentar velhos oponentes, acaba sendo um bom substituto.

O bom senso diria que eu deveria me poupar, afinal qualquer contusão agora seria um tremendo balde de água fria – quantos subtextos teria essa expressão? Não obstante minha competitividade jamais permitir esse corpo mole, ainda tem o casamento judaico na seqüência, que com seus elementos de rugby, vale-tudo e jack ass, relegam a um distante segundo plano as chances da contusão vir da travessia.

Segunda-feira eu conto como foi a prova, afinal de contas se até o Stephen Hawking consegue digitar com um dedo só…

Mimetizando e nadando

O camaleão muda de cor pra se camuflar no ambiente, se protegendo dos predadores e também surpreendendo suas presas. O camelo armazena água nas corcovas pra sobreviver à estiagem. Os pássaros – menos o Pica-Pau – emigram pra fugir do rigor do inverno. E por que eu não posso deixar a barba crescer pra proteger uma das partes não cobertas pela roupa?

Vamos lá. Eu realmente acredito que isso possa ajudar, sério. Por que então os carecas precisariam mais de chapéu/gorro no inverno? Por que as pantufas mais quentes são aquelas mais peludas? Por que então as luvas? Estamos falando das extremidades do corpo humano: pés, mãos, cabeça, que realmente são as vias de saída de calor.

castaway

E se não funcionar, alguém duvida do fator placebo? Se eu cair na água achando que meu rosto vai ficar mais protegido da água fria e, portanto, livre da sensação botulínica na cara, isso não ajuda? Com certeza. Portanto, a barba vai ser cultivada até o dia 12 próximo e estou preparado para as comparações.

Náufrago, Robinson Crusoé, e outros personagens beira-mar pra remeter a ilha de Alcatraz são boas referências, mas tenho que confessar que o que mais gosto é Los Hermanos. Além do gosto musical, na pronúncia, ele relembra os eternos loser manos e o falecido bloser…

E esse último sábado cai na água pra fazer a estréia da roupa. Vou pular a parte que já tinha previsto, como a do tempo ruim, mar revolto…em todos esses pontos deu a lógica. Só subestimei o número de vira latas. Vimos uns 3 pelo menos.

Ao entrar no mar, mal deu tempo de ser acometido por aquela sensação de estranheza, pois já começamos a ser engolidos pelas ondas (nota: primeira vez que fui pra lá que vi surfista na água). Depois de passar a arrebentação, veio a primeira conclusão mais enfática: parece que você está montado numa prancha, tal o poder de flutuação que a roupa lhe confere. Ao iniciar as primeiras braçadas mais ritmadas, a segunda grande conclusão: ela realmente dificulta a rotação dos braços.

bolsa_termica

O terceiro achado não demoraria a aparecer: você se sente como aquelas bolsas térmica de vovó, já que a água vai entrando pelo braço, perna e pescoço e depois daquele primeiro desconforto, parece que essa água esquenta e fica por lá. Por fim, por mais que você mande ver na vaselina, você nunca sai incólume do roçar nonstop da roupa no pescoço.

Avaliação geral? É difícil de avaliar com o mar mexido do jeito que estava, mas em geral parece que mais atrapalha a natação em si. Com relação à temperatura, novamente pouca base de comparação. Tava mais frio fora que dentro da água. Já o café com leite aguado e o pão na chapa – mesmo com leve gosto de peixe – do quiosque-apoio fechou a empreitada com categoria…

Big opening

Amanhã por volta das 9 da manhã caio nas águas frias de Guaiúba pra fazer o tão esperado test-drive da roupa corta-frio. Após a tentativa frustrada de falar com meu ex-mestre pra ele armar um treino oficial, com caiaque de apoio e tudo mais, resolvi convocar na raça os colegas destemidos de treino.

Algumas recusas e revelações de contusões sérias depois, sobraram apenas meu irmão e o representante da escola alemã de natação, um cara que já nadou nas águas gélidas que escoam dos Alpes. Não precisa ser futurólogo ou ser dotado de uma excelente imaginação pra desenhar a cena amanhã: um baita tempo ruim, vento e três caras entrando num mar revolto sob o olhar curioso de alguns pescadores e vira-latas.

Os fins justificam os meios, já dizia o barangueiro-mor Maquiavel. Se a sensação de dever cumprido que rola depois dos treinos rodados de sábado já é embasbacante, o que dizer do que virá depois de passar uma hora chacoalhando no mar com uma roupa desconfortável e o recorrente medo de ser atacado por uma criatura marinha?

No próximo post eu descrevo a sensação, se minhas limitações literárias permitirem…

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